Resenha: O Escravo de Capela - Marcos DeBrito

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Skoob – Avaliação: 5/5 Red heart

Durante a cruel época escravocrata do Brasil Colônia, histórias aterrorizantes baseadas em crenças africanas e portuguesas deram origem a algumas das lendas mais populares de nosso folclore.Com o passar dos séculos, o horror de mitos assustadores foi sendo substituído por versões mais brandas. Em “O Escravo de Capela”, uma de nossas fábulas foi recriada desde a origem. Partindo de registros históricos para reconstruir sua mitologia de forma adulta, o autor criou uma narrativa tenebrosa de vingança com elementos mais reais e perversos. Aqui, o capuz avermelhado, sua marca mais conhecida, é deixado de lado para que o rosto de um escravo-cadáver seja encoberto pelo sudário ensanguentado de sua morte. Uma obra para reencontrar o medo perdido da lenda original e ver ressurgir um mito nacional de forma mais assustadora, em uma trama mórbida repleta de surpresas e reviravoltas.

*Livro recebido em parceria com editora*

Aqui na Fazenda Capela, se o escuro não é mando quando chega, depois de uma coça bem dada de laço quer ver se ainda vai ficar posando de valente.

Escravo de capela foi um lançamento de Junho da Faro editorial, mas como acabei passando Big Rock e Fuck Love na frente acabei empurrando um pouco essa leitura, tolo erro meu, pois quando comecei esse livro fiquei me perguntando porque não o li antes, e agora encarei a missão de pregar a palavra de Marcos DeBrito pra vocês, falar pra todos lerem porque ele é simplesmente foda.

A historia começa angustiante, alias, esse adjetivo define muito bem essa leitura. Sabola é um dos negros que acabaram de chegar na Fazenda Capela, comprados pelo senhor Batista, um dos maiores produtores de açúcar da região e também um homem completamente desalmado e cruel com seus escravos.

Sabola nunca levou esse tipo de vida, então quando ele começa a trabalhar no canavial ele não sabia que não podia cantar, falar em seu dialeto ou se indignar quando os capatazes o puniam com chibatadas, e por isso logo em seu primeiro dia ele já recebeu um imenso castigo que quase lhe tirou a vida. Mas se os senhores achavam que ele ia abaixar a cabeça depois disso se enganaram, pois aquele castigo só criou mais ira dentro de si, só o motivou mais a tentar fugir dali, e é com a ajuda de um dos escravos mais antigos da senzala que ele bola um plano perfeito, quer dizer, que parecia perfeito, até dar tudo errado.

Sabola não se identificava com nenhum deles. O seu olhar consternado, carente daquela esperança que o arrebentara por momentos, vagava pela penumbra do alojamento sem procurar um foco.

Como disse Escravo de Capela é uma leitura angustiante. Na primeira parte do livro você tem que ter estômago para conseguir ler todas as crueldades que são infligidas aos escravos, eles são humilhados, não tem direitos algum, são obrigados a frequentar as missas cristãs pois sua religião africana é considerada demoníaca, eles não podem falar em sua língua natal ou mesmo olhar um capataz torto que já são espancados sem nenhum remorso, alias, é um prazer para os capatazes e Antônio (filho do dono da fazenda) bater nos negros.

Fora que as poucas mulheres que vivem ali são estupradas, assediados, humilhadas...Nossa, a cada pagina meu coração apertava um pouquinho mais, porque é desesperador pensar que isso tudo foi muito real no nosso pais na época do Brasil Colônia, e é mais desumano ainda pensar que não basta o que os negros sofreram naquela época, hoje com tanta modernidade eles ainda sofrem tamanho preconceito e humilhações por conta de sua pele.

Eu poderia entrar em detalhes em vários temas tratados pelo autor nesse livro, mas não ia parar de escrever nunca aqui hahaha, por isso eu quero citar um em especial, em como a religião cristã era usada para controlar mais aquelas pessoas.

A grande extensão do cercado, expondo ossadas mal soterradas, ficava às vistas dos escravos sempre que compareciam à missa compulsória, lembrando-os de que mesmo na morte estariam presos a Capela.

Eu nunca comprei a ideia de que os escravos (e os índios) gostavam da ideia de seguir o cristianismo, porque eles foram arrancados de sua terra natal, tinham família, Cultura, religião, e quando chegam ali naquelas terras além de sofrerem nas mãos de pessoas cruéis de desumanas, eles ainda tinham que seguir uma religião que pregava o amor de um deus que nunca os salvava dos castigos que sofriam, mesmo que eles se convertessem pra tal religião. Eu quis bater palmas quando vi no livro que o autor tinha tal pensamento também, é surreal pensar que além de chicotes e humilhações a Igreja usava a palavra para domesticar ainda mais aqueles seres humanos, e quero parabenizar o autor por ter tratado do tema de maneira tão clara e verdadeira.

Mas o livro ganha um enredo de filme de terror quando una crueldade sem limites é infligida a um escravo, é aí que o autor recria a lenda do Saci-Pererê e a mula sem cabeça para conseguir a vingança contra os brancos que tanto os machucaram. Tal recriação foi brilhante, eu não conseguia tirar os olhos do livro, pois a cada pagina tudo ficava mais cheio de sangue e em um cenário de desespero para aquelas pessoas que estavam na mira do Saci, e com tamanha confusão muito a segredos sórdidos da Fazenda de Capela iam se revelando, deixando o leitor ainda mais preso nas paginas.

O final do livro então foi surpreendente, cara eu não esperava nada das revelações que foram feitas durante a matança, o autor criou uma historia digna de cinema, com aquele ar de mistério que deixa o leitor roendo as unhas para saber o que aconteceu verdadeiramente ali.

Parecia-lhes impossível crer que um cadáver fosse capaz de abandonar a própria cova para invadir uma residência na clara intenção de vingança por sua morte.

A narração em terceira pessoa deixa o livro ainda mais bacana, pois temos uma visão crua de todos os personagens, desde os escravos e todo seu sofrimento até os capatazes e os donos da fazenda Antônio, Batista e Inácio, que tinham uma personalidade completamente diferente um do outro, indo da bondade ao sadismo. Essa narração é muito boa também para sabermos das historias por trás dos panos e flashs do passado sem ficar com um ar maçante, afinal é como se soubéssemos os relatos da boca de cada expectador daquela cena, e assim tudo fica mais real e próximo do leitor.

A mula sem cabeça aprouximou-se do perneta encapuzado. Para conseguir ficar de pé, o homem agarrou-se ao pouco de crina que restara no pescoço degolado do animal e, amparado pela força dos braços, saltou sobre seu lombo. Como um cavaleiro do inferno ele cavalgou sua montaria trevorosa em direção à fazenda.

Não preciso nem falar que a edição da Faro é simpletamente incrível não é mesmo? Com uma capa completamente macabra, o livro é cheio de ilustrações por dentro da capa que tem muita relação com a história, além de ser todo vermelho nas laterais das folhas, dando um toque sangrento a mais à obra.

Enfim, acho que não posso falar mais se não vou acabar entregando algo da historia. Mas sinceramente tudo que posso dizer pra vocês se resume em três palavras: LEIAM ESSE LIVRO! Marcos DeBrito foi simplesmente incrível nessa história, é uma leitura cruel, verdadeira, desumana, angustiante, mas que se torna simplesmente incrível com o enredo de vingança do Saci e a mula sem cabeça. Você vai se prender nessas paginas logo no primeiro capítulo, vai sofrer muito, porém dará sorrisos sádicos no final com a tal vingança merecida. E apesar de tanto sangue derramado, essa trama mórbida vai ganhar seu coração e vai te fazer pensar nessa historia durante dias, e querer indicarem-la para todos assim que virar a ultima página.

Um quebra-cabeças de caules ocos partidos indicava duas palavras escritas na terra, contudo, elas pareciam incompletas. A maior parte das lascas encontrava-se espalhadas pelos lados, mas as duas dílabas iniciais de cada um dos vocábulos permaneciam bem incrustadas no chão em letras maiúsculas que diziam “SA”  e “CI”.

O Escravo de Capela

ISBN-13: 9788562409899
ISBN-10: 8562409898
Ano: 2017 / Páginas: 288
Idioma: português
Editora: Faro Editorial

avaliação cupcake - Cópia

15 comentários:

  1. Olá, Sabrina! Tudo bem?
    Adorei a foto do livro com essa ecobag que a Faro enviou para os parceiros. Concordo contigo que a edição está incrível, outro belo e competente trabalho da editora. Gostei da sua resenha, ficou objetiva. Pretendo levar ao ar a resenha de Escravo semana que vem. Fico feliz que tenha gostado da leitura.
    Abraço!

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  2. Ola
    Quero muito poder fazer essa leitura e sua resenha me deixou ainda mais curiosa quanto ao desenvolvimento. È um genero que eu gosto muito, então expectativas é o que não faltam. Acho que nesse tipo de obra, a narração em terceira pessoa é muito importante mesmo, para o acompanhamento de todos os lados dos personagens. Essa capa está mesmo macabra, o que deixa tudo mais instigante ainda!
    Beijos, F

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  3. Nossa, que livro é esse, ein! Essa capa esta incrível. Me interessei demais pra ler ele, porque junta dois assuntos que sempre me chamam a atenção: escravidão e folclore brasileiro. Vou já adicionar no Skoob!

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  4. Sua resenha deixou meu coração apertado sobre as torturas e sobre a situação da mulher daquela época. Sei que se vier a ler, sofrerei, mas acho que é uma leitura importante e quero faze-la, mesmo sofrendo.
    MEU AMOR PELOS LIVROS
    Beijos

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  5. Oie, tudo bem?

    Adorei sua resenha, mas de alguma forma esse livro não despertou tanto meu interesse... Por mais que tenha sido importante nesse caso, não curto narrativa em terceira pessoa... A Capa está incrivel, só li ótima resenhas sobre ele, talez dê uma chance para gostar dessa história também ♥

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  6. Oi Sabrina,
    Quando vi esse lançamento não fiquei muito curiosa para fazer a leitura, pois achei o livro pesado e, bem, de certa forma, eu estava certa. Fiquei muito contente por você ter curtido. A minha vontade de ler esse livro começou depois da live com o autor, que me convenceu de todas as formas possíveis. Acho que essa áurea de filme é muito bacana e isso acontece porque o autor é um cineasta.
    Agora preciso pegar esse livro para ler para ontem.
    Beijos

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  7. Oie tudo bem?

    Guria eu já tinha lido algumas resenhas sobre essa obra, mas nenhuma tinha chegado ao ponto de despertar a minha curiosidade para realizar a leitura dessa obra, mas você conseguiu! Com certeza será a minha próxima solicitação a editora essa obra!

    Bjss

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  8. Não conhecia a obra ou o autor. A capa não me é muito atrativa... Embora seja um atrativo para nossa cultura, não sei se leria, huahuaha!

    A sinopse não me chamou muito a atenção. Ainda mais depois de ver que tem muita crueldade gore no conteudo, sou uma pessoa meio sensivel a essas coisas. Também acho muita besteira acreditar que os indios e os escravos aceitaram de boa a situação em que estavam né? Muita inocência.

    Abraços!
    www.asmeninasqueleemlivros.com

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  9. Uau, amei esse livro só de ler a resenha, gostei mesmo. Também penso como você e o autor, os povos escravizadas não aceitaram de boa a tudo que lhes era imposto. Legal ver que foi por esse ângulo que o autor analisou as coisas, bom ver que ele não romanceou a escravidão em suas páginas.
    Legal também o fato de ter pelo que parece uma releitura do folclore brasileiro, show isso. Adoro quando os autores descrevem coisas de nosso país. Vou anotar o nome desse livro para procurar por ele depois. Bexitus, Tay!

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  10. Geentee, como assim eu não conhecia esse livro ainda???
    Pra começar, amei a capa!! Está maravilhosa e chama muito a atenção.
    Depois já me interessei pela sinopse, que já mostra que o enredo mistura lendas folclóricas com fatos reais de uma época tão sofrida de nossa história.
    Com sua resenha, fiquei mais curiosa ainda, pois pude sentir um pouquinho da sua angústia e perturbação ao ler o livro.
    Estou curiosíssima! Dica anotada!
    Um beijo

    www.asmeninasqueleemlivros.com

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  11. Oi.
    Realmente: que livro foda.
    Dá até uma espécie de nostalgia em mim porque minha avó trabalhou em uma fazenda por algum tempo logo depois que casou, e ela ouvia muito essas lendas macabras e eu passava horas e horas ouvindo ela me contar essas lendas quando eu era criança.
    Então nem preciso dizer que amei a premissa do livro, não?
    Com certeza pretendo ler.
    Beijos.

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  12. Oi Sabrina,
    eu nem imagino a tensão que essa leitura deve proporcionar, faz um tempinho que li um livro denominado "Escravas de coragem" e quase morri de tanta angústia, a história dos escravos é dolorosa de se ler e eu ando evitando obras do tipo bem como as que abordam a Alemanha nazista, não estou tendo estômago e nem coragem de me aventurar por essas tramas tão pesadas mesmo sabendo de sua importância.

    Beijos!

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  13. Olá!
    Eita, relamente deu para sentir a blusa empolgação sobre esse livro! Já ouvi diversas críticas boas sobre a obra, não época meu estilo de livro e vou ter que deixar a dica passar, infelizmente. Eu adorei essa de dar risos sádicos no final ahah Enfim, eu amei a sua resenha, tenho certeza que muito lá aceitaram a dica ❤️
    Um beijo

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  14. Olá Sabrina,


    Já vi muitas resenhas sobre esse livro, e muitas delas foram positivas. Tenho muitas dificuldades em ler livros que demonstram o sofrimento físico e psicológico do ser humano, principalmente relacionados a tortura da escravidão. Sempre me ponho no lugar do outro e sinto a dor e humilhação durante a leitura, o que me causa até um certo receio na leitura. Mas a dica está anotada e as vezes se tiver no clima compro o ebook.

    Beijos e obrigada pela resenha
    http://floraliteraria.blogspot.com.br/

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  15. Oi, Sabrina

    Eu geralmente gosto de histórias angustiantes e pelo que você descreveu este livro com certeza se encaixa na categoria. Quando você falou na maneira como as mulheres eram tratadas chegou e me dar uma coisa, é impressionante saber que isso acontecia há apenas alguns séculos...
    Gostei desse lance da recriação das lendas do folclore brasileiro, deve ter ficado muito interessante e confesso que foi isso que fez a vontade de ler aparecer! Curiosa...

    Beijos

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